Arquivo de fevereiro \18\UTC 2010

Saudoso mundo novo

O saudosismo, “a nível de” sentimento, é uma coisa que praticamente todas as pessoas sentem (com exceção, é claro, dos amnésicos).

Todo mundo tem alguma lembrança, algum cheiro ou imagem que lembra sua infância, seus momentos felizes ou aquela experiência de vida única que ficará marcada para sempre na memória de uma pessoa.

A publicidade, por vezes, se utiliza de artimanhas ligadas ao saudosismo para conquistar, recuperar ou mesmo agradar aqueles consumidores que em algum momento de suas vidas tiveram alguma experiência que seja relacionada ao produto oferecido. Algumas vezes também ocorre um movimento contrário, em que as propagandas acabam marcando época e causando um sentimento de comoção geral na população que vivenciou a veiculação de determinada mensagem (seja no clássico comercial do sutiã ou naquele da pipoca com guaraná).

Porém, o saudosismo não é unânime. Cada geração tem sua história, cada pessoa tem seus heróis e vilões e cada um tem seu tempo. E é exatamente esse referencial “tempo” que vem sofrendo alterações conforme as horas passam.

Se na década de oitenta um objeto se tornava obsoleto a cada nove, dez anos, hoje a cada nove ou dez meses (às vezes até menos) uma nova tecnologia pode ser ultrapassada e entrar para o grupo das saudosas (ou não tão saudosas) lembranças. Quem não concorda que me diga: há quanto tempo o Chrome existe e quantas versões já foram disponibilizadas pra download?

E o 3D, você acha uma tecnologia nova? Quem não lembra daqueles óculos muito firmezas que vinham com livros de dinossauros? Aquilo era 3D? A tecnologia evoluiu?

Sem finais do tipo “o futuro é agora!” ou “a evolução chegou”, hoje vive-se numa época de tempo escasso, porém de revoluções tecnológicas diárias que permitem um maior aproveitamento de cada segundo do dia. Nesse ambiente, os saudosismos serão cada vez mais precoces e as lembranças, superficiais. Quem conseguir causar o maior impacto no menor período de tempo pode se dar bem.

Para ilustrar, o vídeo que inspirou o texto:
(notem que o Photoshop utilizado como referência é o CS3, lançado em 2007 e já ultrapassado pelo CS4. Para os saudosistas, ele é do tempo em que não dava pra fazer gradiente transparente sem a tal da opacity mask)

Adobe Photoshop Cook from Lait Noir on Vimeo.

Uma visão sobre planejamento

Cruzar informações, analisar possibilidades, estabelecer estratégias, testar métodos e desenvolver ainda mais as capacidades. Há 25 anos, o Cirque Du Soleil revolucionou e modernizou o circo, unindo arte circense com arte dramática e encantando, desde então, um respeitável público de 90 milhões de pessoas no mundo todo.

O grupo, fundado em 1984, nasceu com o objetivo de transformar cada apresentação em uma homenagem à alegria dos palhaços e às habilidades de contorcionistas, acrobatas e equilibristas, personagens que pareciam esquecidos quando comparados à insistência do circo tradicional em apresentar macacos, elefantes e leões.

A proposta do grupo baseou-se num conceito totalmente novo. O alinhamento de inovação e utilidade, além da estratégia de preços e ganhos de custo, permitiu uma visão acima da concorrência, que sempre esteve com o mesmo molde de atrações e público-alvo. Ao contrário dos demais, o Cirque du Soleil combinou disciplinas artísticas e acrobáticas e se fundamentou em um mercado ainda não explorado e sensível à sofisticação imaginada.

Hoje o Cirque representa não apenas um circo diferente, mas  um mercado inovador, estabelecido por meio de análises, estratégias, ideias audaciosas, e principalmente, por algumas escolhas. A ideologia deste circo traduz a dimensão e a importância do planejamento estratégico, seja falando em propaganda ou no âmbito de negócios.

Perceber o quanto nós, planejadores e articuladores, podemos fazer a diferença tanto na entrega de conteúdo às pessoas como também no sucesso e crescimento de marcas e negócios é algo tão fascinante quanto um espetáculo completo do Cirque do Soleil.

[Post da colaboradora: Bárbara Zachi]

Síndrome de superioridade – O Srº diferencial de produto

Continuando aquele papo sobre discurso de superioridade, ratifico minha opinião de que existem 2 macromodelos básicos desse tipo de discurso: quando se tem um diferencial de produto muito claro ou  quando não o tem.

Voltando-se agora só ao primeiro grupo, ter um “Srº diferencial de produto” não significa certeza de relevância ao consumidor e muito menos de uma comunicação que se destaque (os produtos Polishop estão ai pra nos ensinar isso; salvo as devidas proporções, é claro).

Mas o que garante que nosso diferencial tem relevância? O que garante que valerá seu preço maior? Na minha opinião, nada.

Uma das possíveis formas de mostrar sua superioridade tangível é através do questionável vídeo demo que, apesar de pouco criativo, às vezes pode ganhar um importante papel pedagógico. Algumas vezes vemos execuções brilhantes e bem resolvidas, enquanto que na maioria das vezes o resultado de um demo é lamentável. Particularmente não gosto desse formato, acredito que não gera nenhum envolvimento com a marca (talvez apenas com a categoria).

Gosto de marcas que envolvem o público numa narrativa, aquelas que criam uma história envelopada pelo seu diferencial. Para mim, esse é o caminho ideal pois se torna mais factível, verdadeiro e menos distante. Um bom exemplo disso foi a Sony Bravia, a qual tinha apenas um diferenciador: uma incrível resolução de imagens. A solução encontrada foi extrapolar seu diferencial e abranger outros significados. Para tal, foi usado o exagero e hipérbole como ferramenta discursiva através de situações extremas de uso e presença das cores.

Prieto .

O fardo de ser foda

Esse é o gráfico da AAPL, nome das ações da Apple na NASDAQ, na semana em que Steve Jobs anunciou o iPad. O que ele tem de interessante? Ele mostra que ações da Apple desvalorizaram quase 5% em uma semana de lançamento de produto!

Além disso, com um zoom no dia 26/01 (véspera do grande dia), vemos a expectativa refletir diretamente na valorização, ou seja, o sentimento de “uhu! é amanhã que a Apple lança outro iPod, revoluciona o mercado e eu ganho dinheiro com isso” tomou conta e a especulação levou a uma valorização de mais de 5%.

Contudo, o dia chegou, o Steve Jobs deu show com sua “prancheta digital” (durante a apresentação as ações alcançaram picos de 2,1% no gráfico diário), mas o iPad decepcionou muitos, seja por não ser multitasking, por não apresentar USB ou só por parecer um iphonão que não liga. Conclusão disso? Quem vendeu rápido se deu bem, mas quem acreditou que o produto iria refletir toda a imagem da marca e superar expectativas, danou-se (as ações nos dias seguintes despencaram mais de 8%).

Mesmo não sendo um produto ruim, o iPad não condiz com a imagem da Apple. Quando todos só esperam coisas incríveis de uma determinada marca, fazer o normal passa a não ser suficiente. Aposto que se o iPad fosse da Dell esses números seriam bem diferentes.

Obs: Existem outras mil variáveis que influenciam esses gráficos, não garanto que as contas estão certas e eu se fosse você não levaria nada disso a sério.

Thot.

Um retrato contemporâneo, nada mais

[Post da colaboradora: Lia Oliveira]

Entre idas e vindas, mais uma vez assisti ao famigerado Big Brother Brasil. Sim, o tal programa que tá na boca de todo mundo e já deu o que falar pra muita gente. O que as pessoas não sabem é que, pelo menos pra mim, o programa é a perfeita personalização de Macunaíma, o personagem de Mario de Andrade. Lembra dele?

Macunaíma nasceu numa tribo amazônica e era uma criança diferente das outras do lugar. Era mal-educado, fazia de tudo para aparecer e era extremamente preguiçoso. Quando cresce e se apaixona por Ci, a Mãe do Mato, que lhe dá um amuleto chamado Muiraquitã, o qual se transforma no seu objeto mais precioso. Ao longo da história, ele perde a pedra e segue numa busca frenética pela mesma, recuperando-a de volta e regressando para a sua tribo, onde após uma série de aventuras finais, perde novamente a pedra, por preguiça, má vontade ou desatenção.

Os “brothers e sisters” nada mais são do que grandes Macunaímas peguiçosos, que usam da própria imagem (e é claro, do corpo) para correr atrás de um Muiraquitã, disfarçado atrás de um milhão e meio de reais. Se para ganhar esse amuleto for necessário mentir, manipular ou seduzir, acredite, eles o farão. E tudo isso pra quê? Por 5 minutos de fama.

Talvez seja até uma ofensa comparar uma rapsódia escrita da Semana de Arte Moderna com o BBB, mas fica uma questão “o que esperar de um programa como o Big Brother?”. O que espera de nós, espectadores, uma emissora do tamanho da Globo?

Mario de Andrade sabia muito bem o que estava escrevendo, Macunaíma sempre foi o retrato do brasileiro: herói sem caráter. Seria então o Big Brother nosso retrato contemporâneo? Por favor, quero ser eliminada dessa nave mãe.



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